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Conhecem aquela frase do Oscar Wilde: “Everything is about sex, except sex. Sex is about power.” (Tudo é sobre sexo, excepto sexo. Sexo é sobre poder.)? Para quem estuda sexualidade, essa é uma concepção do sexo que, apesar de nunca ter sido tão bem resumida por outro escritor, tem ecoado amplamente por toda a história da humanidade (e do reino animal também, já agora). O sexo como instrumento de poder (e o poder como instrumento sexual) é a base de quase toda a chamada “selecção natural”. A conquista do poder sempre foi uma forma de ganhar mais acessibilidade às mais variadas formas de prazer e de procriação, fosse por quem subisse no topo da hierarquia, fosse por quem ficasse sujeito (ou seduzido) por quem ganhasse esse estatuto. Dessa conquista poderiam provir mais possibilidades de sobrevivência, mais acesso a comida ou bens, mais protecção para as crias ou simplesmente um melhor legado genético, entres outras vantagens, de acordo com o contexto específico.

Quem pode, fode

O poder sempre garantiu mais sexo e o sexo sempre garantiu mais poder, e esse tem sido o mote da nossa evolução durante milhões de anos. Mas o que nunca esteve implícito nesta equação foi o conceito de Prazer.

A concepção e a reprodução nunca se basearam no prazer, pelo menos no prazer de todas as partes envolvidas. O prazer terá sido sempre mais masculino que feminino, isso é certo. Para a concepção, certamente que todos os homens tiveram pelo menos um orgasmo com ejaculação. Ou se não tiveram o orgasmo, pelo menos ejacularam, o que resulta quase sempre de uma estimulação muito grande. Mas não é certo que as mulheres que foram impregnadas pelo sémen masculino tenham tido algum orgasmo ou sequer prazer, fosse ele qual fosse. Uma questão ainda mais inconveniente quando são as mulheres a possuir um órgão apenas vocacionado para essa finalidade.

Lembram-se da história da Princesa e da Ervilha? Sempre tive curiosidade em saber se algum príncipe sentiria a ervilha…

O que não se deve pensar é que esta negligência do prazer se deve apenas à espécie masculina. Tal como os navegadores encontraram novos mundos através do acaso e da curiosidade, muitos homens não sabiam que o que fazer para proporcionar prazer no sexo… e também não lhes foi despertada essa curiosidade, fosse por desconhecimento ou até propositadamente. E as razões para isso podem ser as mais variadas. Entre elas, uma noção de poder por parte das mulheres, porque a dimensão do poder está tanto na sua aquisição e imposição, como na sua reclusão e proteção. Poder não é nem nunca foi apenas força. Poder foi e sempre será conhecimento. Mesmo no reino animal, nem sempre foi a lei do mais forte que prevaleceu na selecção natural. A lei natural mais antiga é a lei do mais astuto. Apesar da natureza ser constituída por forças em constante conflito, no reino dos seres sensíveis, sejam animais e até vegetais, há inúmeros exemplos de seres mais fortes que desaparecem por serem menos inteligentes. Muitas plantas mais frágeis sobrevivem por saberem posicionar-se melhor em relação ao sol, à chuva, aos nutrientes do solo e até à polinização. Da mesma forma, muitos animais mais fracos conseguem obter mais poder alterando a sua a sua compleição física, o seu comportamento e até mesmo o seu género.

O poder não é nem nunca foi um processo singular. Existem inúmeras representações de poder e de contra-poder (o que também é uma forma de poder). Homens e mulheres, sempre que confrontados com demonstrações de poder, tiveram a opção de se subjugar ou de confrontar esse poder. O mundo é feito de forças dispares e antagónicas, sim, e sempre será. É impossível nivelar tudo o que existe segundo um mesmo princípio. A realidade não funciona assim. Apenas a forma como reagimos a essas forças é que pode ser alterada e adaptada. E isso só depende mesmo de cada um, porque raramente há soluções que agradem a todos.

O saber ocupa lugar

Enquanto sex coach, trabalho com muitos casais onde estas lutas de poder estão amiúde presentes. E nesse contexto em que não é aceitável uma resolução dos problemas pela lei da força, a única estratégia a adoptar é a da negociação. Sem negociação raramente há entendimento. E quando não há entendimento, raramente as relações duram.

O que é posto em cima da mesa não são as obrigações de cada um, mas sim as necessidades de cada um. E se a partilha de poder não conseguir colmatar essas necessidades, então há que fazer concessões. E é nessa capacidade altruísta que reside a sensibilidade. É nessa capacidade de ver o outro nas suas fragilidades que reside a intimidade e a cumplicidade. E é na resolução dessas divergências e na procura de novas formas de promover o bem-estar da pessoa que nós amamos que está o segredo da mais subversiva forma de poder: o grandioso prazer.

É da procura desse prazer que vem a convergência de ações, de emoções e de objectivos. Uma forma de poder partilhada, que tem muitas formas de ser exercida. A sedução é sem dúvida uma das mais eficazes porque não escolhe sexos, géneros, contextos ou intenções. Vale tudo no amor e na guerra. Mas quando o intuito é que todos ganhem, o conflito é mais que bem-vindo.

Para que seja sempre um prazer

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